As comunidades descendentes de quilombos se tratam de grupos com características culturais próprias, oriundas de ancestrais sobreviventes do processo de escravidão. Vivem em regiões muitas vezes sob condições de vulnerabilidade, a maioria localizada em regiões rurais. Das registradas em todo território brasileiro, a maior parte está localizada no estado da Bahia, onde se encontra a Comunidade remanescente do Quilombo Boi, situada no município de Pindaí-BA. É uma comunidade relativamente pequena com cerca de 160 habitantes, certificada em 31 de janeiro de 2017. Adentrar às comunidades descendentes de quilombos é inclusão social, é quebrar preconceitos, e entender uma realidade extremamente diversa e complexa, é valorizar nosso povo e nossa história. Analisar as condições bucais de grupos para assim trabalhar em suas necessidades específicas atende o princípio de equidade. Sendo assim a avaliação intra oral, o conhecimento dos hábitos alimentares e da rotina dos quilombolas interfere diretamente na tomada de medidas em prol desse grupo. No quesito saúde bucal, sabe-se que a prevenção é de longe a melhor alternativa e de mais baixo custo, que nos traz resultados plausíveis e a longo prazo. O conhecimento de como a rotina alimentar e a destreza manual na escovação pode intervir no processo saúde/doença, principalmente se falando de carie e doença periodontal, é de grande relevância e de um poder impactante nos níveis do Sus.
Sabemos que a maior parte das doenças bucais podem ser evitadas pela familiarização e prática de hábitos de higiene bucal. O distanciamento físico e a exclusão social de populações quilombolas podem inviabilizar essas condutas. Sendo assim, o objetivo dessa atividade é motivar o autocuidado como princípio básico para promoção de saúde e prevenção de doenças bucais, além de garantir um programa de atendimento com caráter preventivo, integral e com equidade, levando em consideração os valores dietéticos e culturais dessa população. Promover educação, resultando no aumento da habilidade e intensificando a participação ativa dessa comunidade, afim de expandir e fortalecer a saúde por meio de um trabalho coletivo e participativo. Além de ofertar serviços odontológicos e conhecer as condições de saúde bucal especificas dessa área. Expor a logística e a aplicabilidade dessa experiência a fim de ampliar atividades odontológicas e de outras especialidades em comunidades quilombolas
O projeto educação em saúde bucal no quilombo Boi no município de Pindaí-Ba, foi realizado por profissionais de saúde atuante no município juntamente com apoio da secretaria de saúde. Durante a jornada procuramos adentrar um pouco na rotina do povoado, observando seus principais alimentos, seus costumes, cultura. Realizamos em primeira mão uma aproximação pessoal e em seguida preenchemos questionários com alguns integrantes do grupo nos quais continham perguntas relacionadas aos principais alimentos consumidos, origem da água, hábitos e rotina. Em segunda instância, foram ministradas palestras educativas aos pais/responsáveis e às crianças, contendo informações sobre higiene bucal, controle de ingestão de açúcares e importância do flúor, em seguida foi realizada uma inspeção clinica mais acurada, com ajuda de palito de madeira para afastamento, orientações quanto a higiene bucal, escovação supervisionada em massa e aplicação tópica de flúor as crianças e adolescentes receberam escovas e creme dental fluoretado.
Foram observados durante esse período uma receptividade e uma participação proativa da comunidade, assim como uma interação e entendimento da importância da prevenção na saúde bucal, mostrando-se empenhados em realizar o que foi passado e inserir de maneira simples a pratica da higiene oral na rotina e tendo excelentes resultados quanto à participação nas atividades preventivas e educativas. Porém, é de suma importante tornar frequente nessas comunidades as atividades em prol da saúde bucal para fortalecimento da autonomia dos indivíduos, proporcionando assim uma melhoria sobre a saúde bucal. Analisando os questionários percebemos que a falta de discernimento entre alimentos cariogênicos e não cariogênicos muitas vezes deixa a desejar no controle da alimentação das crianças, o esclarecimento levou a uma discussão participativa dos pais. E com isso uma melhor preparação para conduzir as crianças. O conhecimento sobre a composição do biofilme e a desorganização da placa bacteriana foi primordial para mudança de hábitos nesta comunidade. A educação em saúde bucal se mostrou mais uma vez a principal alternativa para conquistar a autonomia e responsabilidade individual sobre os principais problemas de saúde bucal em comunidades quilombolas no Brasil
Através de atividade em saúde bucal direta e participativa na comunidade de quilombos Boi, percebemos que a falta de conhecimento sobre alimentos, hábitos e higienização é um fator primordial no processo de desenvolvimento de doenças bucais. Assim sendo, concluímos que tão importante quanto a atuação do profissional na aplicação tópica de flúor e escovação supervisionada, está a orientação e educação do indivíduo na autonomia sobre esse processo. E quanto mais distante socialmente e culturalmente está esse povo mais deve ser o empenho do município para com essas comunidades. Sabemos ainda da importância na continuidade dessa atividade para fortalecimento da autonomia dos indivíduos, proporcionando assim uma melhoria sobre a saúde bucal.